Bibliotecas Públicas fora do Balanço Social

Por princípio, cada cidadão que paga impostos é um investidor na organização e vida de sua cidade, estado e país. Consequentemente, para perceber quais os objetivos econômicos, sociais e ambientais de seu investimento, este cidadão precisa entender como seu dinheiro esta sendo aplicado. Para isso, cabe aos gestores públicos a prestação de contas destes investimentos que, por exemplo, pode ser feita pela publicação de um Balanço Social – modelo utilizado para promover transparência de ações e propiciar um diálogo entre governo e sociedade. Além do caráter administrativo, observar as informações dos balanços divulgados por órgãos públicos ajuda comparar nossa percepção da vida na cidade com a percepção da política local e pensar: as ações do governo deixaram nossa vida melhor?

Recentemente, a Prefeitura Municipal de Osasco circulou uma revista com o Balanço 2013 da “atual” administração pública da cidade.  Em resumo, o documento apresenta um conjunto de boas ações que criam um panorama das ultimas melhorias realizadas na cidade.  Uma lista de obras importantes, reformas e outros investimentos registram positivas ações, no entanto, seu conteúdo provoca uma sensação de estranhamento e uma reflexão: o que lemos no balanço se parece com o que vemos ou sentimos sobre a cidade? Muito embora os projetos e ações apresentados sinalizem um avanço, uma percepção contrária dilui esta positividade.

No caso da Cultura, área na qual as Bibliotecas Públicas estão atreladas, conseguimos perceber, pela ausência de informações, que muito pouco (ou quase nada) foi investido para melhorar os serviços de apoio à comunidade oferecidos pelas bibliotecas municipais.  A maioria dos destaques apresentados no balanço são eventos de entretenimento e ações de política cultural, sugerindo que nenhum projeto expressivo para Bibliotecas Públicas aconteceu. Uma situação no mínimo estranha, já que a principal biblioteca da cidade completou 50 anos em 2013 e as bibliotecas ramais completaram 10 anos de existência em 2012. Será que não existem ações, minimamente expressivas, desenvolvidas para Bibliotecas Públicas?

Em contraste, informação divulgada sobre o balanço municipal 2013 registra que a cidade de Osasco foi elevada para a 11ª posição no ranking de municípios com maiores PIBs. Boa notícia? Sim. No entanto, comparativamente, nos remete para recente análise crítica feita sobre a cidade de São Paulo, que estaria cada vez mais rica, porém, empobrecida socialmente. No texto “Pobre cidade rica” (leia íntegra da matéria publicada no jornal O Estado de S. Paulo) o sociólogo José de Souza Martins reflete sobre a crise urbana e um de seus pensamentos esclarece:

“Amontoados de prédios não faz uma cidade. Cidade é um modo de vida em que o redesenho e a racionalização do espaço deve tornar a vida mais fácil, mais simples. Deve agregar qualidade à existência, rapidez, conforto, bem-estar, alegria”.

Considerar a essência dessa premissa, assim como a percepção de satisfação do cidadão em todas as áreas de atuação dos gestores públicos, parece uma boa medida para avaliar o Balanço Social de uma cidade. No final das contas, indicadores de riqueza e bem-estar social precisariam ser diretamente proporcionais.

“Concentre-se nos pontos fortes, reconheça as fraquezas, agarre as oportunidades e proteja-se contra as ameaças”

A citação do título é de autoria de Sun Tzu, considerado um dos maiores estrategistas militares de todos os tempos e autor do livro “A Arte da Guerra”. Esta frase resume um conceito importante para ações de Advocacy em Bibliotecas Públicas, ou seja, definir os pontos fracos e fortes que comprometem um bom plano de ação. Para facilitar esta análise e reconhecer estes fatores, sugerimos o uso de uma ferramenta de gestão conhecida como “SWOT”, da sigla em inglês para Strenghts (Forças), Weakness (Fraquezas), Opportunities (Oportunidades) e Threats (Ameaças). Esta ferramenta possibilita criar um cenário (interno e externo) do ambiente da biblioteca e favorece o processo de planejamento utilizado para avaliar as Forças, Fraquezas, Oportunidades e Ameaças que envolvem um projeto ou uma tomada de decisão. Para criar esta análise de cenário, segue abaixo uma simulação de uso da ferramenta com perguntas e respostas sobre o ambiente de uma Biblioteca Pública.

Forças e Fraquezas > são fatores internos, recursos que uma instituição possui à sua disposição e podem favorecer ou dificultar a realização de um projeto.

Força

  • O que a equipe da biblioteca faz bem? Exemplo: a biblioteca possui um bom serviço de referência que apóia de forma dinâmica seus usuários; o acervo é atualizado com freqüência e contém uma diversidade grande de suportes (DVDs, CDs, revistas e livros eletrônicos); possui capacidade para transformar produtos culturais em informação e, por agregar valor, torna a biblioteca mais útil e diferenciada das restantes.
  • Que recursos especiais a biblioteca possui e pode aproveitar? Exemplo: o espaço físico da biblioteca, interno e externo, propicia a realização de várias atividades que, ao mesmo tempo, podem ser utilizadas pelo usuário ou visitante; as instalações são modernas e aconchegantes.
  • Quais os diferenciais da biblioteca? Exemplo: boa localização, a biblioteca esta próxima de vários meios de transporte (estação de trem, metro e terminais de ônibus).
  • O que a equipe e os usuários da biblioteca reconhecem que é bem feito? Exemplo: a interação entre a equipe da biblioteca e os usuários é rápida e eficiente; por ser composta de profissionais qualificados, promove facilmente ações diferenciadas para (e com) o usuário.

Fraqueza

  • No que a biblioteca precisa ficar atenta? Exemplo: horário de atendimento da biblioteca não atende as necessidades da comunidade e não acompanha o horário de funcionamento do entorno (dia e noite).
  • O que precisa melhorar? Exemplo: a prática regular de exposições de arte e animação cultural; apoio as instituições e outros grupos: universidades, estudantes de pré-vestibular, empresa, comércio e associações culturais, entre outros.
  • Onde a biblioteca deve se blindar (fortalecer)? Exemplo: acervo desatualizado ou inadequado para o público ou falta de verba para aquisição de materiais.
  • Onde possui menos recursos que as demais instituições? Exemplo: orçamento, ocorre inexistência ou insuficiência de recursos financeiros na biblioteca, por falta de apoio dos gestores municipais; recursos humanos, falta capacitação dos profissionais da biblioteca.
  • Quais são as fraquezas da biblioteca identificadas pelos outros? Exemplo: frágil estratégia de marketing da biblioteca, divulgação inadequada de serviços, falta de um canal de comunicação com o público-alvo e outros interessados.

Oportunidades e Ameaças > são fatores externos que a biblioteca não pode controlar, emergem da dinâmica social e são capazes de influenciar diretamente o cumprimento da missão da biblioteca.

Ameaças

  • Que ameaças (leis, regulamentos, áreas concorrentes) podem prejudicar a biblioteca? Exemplo: falta lei orçamentária que defina verba para biblioteca; formação do acervo desatualizada; descontinuidade dos projetos que tiveram impacto positivo na comunidade.
  • Qual o ponto forte de outras áreas de cultura que ameaça a biblioteca? Exemplo: tecnologia, a biblioteca carece de tecnologia atrativa e essencial para os jovens; espaço físico moderno, a biblioteca possui ambiente inadequado e desconfortável.
  • Quais as melhores estratégias e diferenciais dessas áreas de cultura concorrentes? Exemplo: marketing adequado e contínuo, verba conseguida através de parceiras, dinâmica do mercado mais ágil que a dinâmica do serviço público.

Oportunidades

  • Quais são as oportunidades externas que a biblioteca pode identificar? Exemplo: identificar os parceiros, trabalhar com um grupo de Advocacy, monitorar o mercado, sempre favorável em incentivar ideias criativas e geração de novos produtos.
  • O que o usuário da biblioteca deseja e precisa que pode servir como oportunidade de novos projetos? Exemplo: utilização de redes sociais; relacionamento com outras bibliotecas para permuta de novos materiais; expansão de serviços de informação e qualificação profissional.
  • Como agregar valor ao seu produto e ao serviço da biblioteca? Exemplo: fortalecer o marketing da biblioteca em várias dimensões: criar ou atualizar um logo para biblioteca aplicar em produtos; buscar parceiros fortes para divulgação de serviços; criar campanha publicitária da marca “biblioteca”, associando sua atuação à sociedade da informação e do conhecimento.
  • Que tendências você pode aproveitar em favor da biblioteca? Exemplo: a tendência deve estar ligada ao público-alvo, permitindo uma experiência positiva de convivência e bem-estar; como sugestão: criar um espaço tão confortável e visualmente agradável, que seja fator de atração e visibilidade da biblioteca, provocando até registros pessoais de imagens do local em redes sociais (Facebook, Twitter, Tumblr, Pinterest, etc.); uso de novas tecnologias para ampliar o acesso da comunidade à informação, sem restrição e com auxilio para uso.

Responder estas perguntas permite criar planos de ações estratégicos e alcançar melhores resultados. Porém, para análise SWOT é importante não perder a conexão entre a missão e  o objetivo da biblioteca. Para visualizar a relação entre os fatores propostos, faça um exercício rápido e coloque as respostas das perguntas no quadro abaixo. Use o quadro como exemplo de representação das análises necessárias para planejamento de suas estratégias e monitoramento das suas ações.

Ferramenta SWOT

Ferramenta SWOT

 

Primeiro Censo Nacional das Bibliotecas Públicas Municipais coloca Osasco entre os piores resultados

Pesquisa encomendada pelo Ministério da Cultura apresentou quadro negativo sobre as Bibliotecas Públicas do Brasil e a cidade de Osasco se enquadra nos péssimos indicadores da região Sudeste. Os resultados foram apresentados no “1º Censo Nacional das Bibliotecas Públicas Municipais”, realizado pela Fundação Getúlio Vargas, que tem por objetivo “subsidiar o aperfeiçoamento de políticas públicas em todas as esferas de governo (federal, estadual e municipal) voltadas à melhoria e valorização das bibliotecas públicas brasileiras”. Baseados nesta pesquisa, com dados referentes ao ano de 2009, observamos que as Bibliotecas Públicas de Osasco estão em posição desfavorável em relação aos municípios vizinhos: Barueri, Jandira e Carapicuíba. Historicamente, principalmente nas décadas de 70 e 80, a Biblioteca Pública de Osasco absorvia e apoiava à pesquisa estudantil dessas mesmas comunidades vizinhas. Ao longo das décadas seguintes, de forma natural, estas cidades mais próximas desenvolveram mecanismos de redução da carência informacional, criando e ampliando Bibliotecas Públicas Municipais (BPMs). Porém, em Osasco ocorreu um processo de desequilíbrio entre o aumento da população e novos investimentos na área, conforme mostra o ranking de BPMs do país:

Município

nº de BPMs

População (Censo 2010 IBGE)

Posição no Ranking

   Barueri

11

240.749

   Jandira

2

108.344

   Carapicuíba

6

369.584

230º

   Osasco

3

666.740

253º

O ranking leva em consideração o número de Bibliotecas Públicas oferecidas à população, em cidades com mais de 100 mil habitantes.  O resultado não expõe qualidade, mas implica em carência ou ausência de políticas culturais. Comparativamente, Osasco possui uma população de duas a três vezes maior que Barueri e Carapicuíba, porém, apresenta o menor  número de bibliotecas para atender sua comunidade. Neste contexto, Osasco aparece quase no final do ranking, que vai do 1º ao 260º lugar. Posição, no mínimo, preocupante para uma cidade que se promove como “a 5ª maior população do Estado de São Paulo e o 10º PIB entre os municípios brasileiros”.

Este é apenas um dos indicadores, se levarmos em consideração dados por região e perfil nacional, o quadro de dificuldades se amplia, por exemplo:

Região Sudeste (% de serviços, características de acervo e atividades oferecidas) 

  • 0%  – possui Laboratório de microfilmagem > significa que as Bibliotecas Públicas estão pouco preocupadas com a preservação de longo prazo para documentação histórica.
  • 4%  – possui Laboratório de conservação e restauração > Osasco possui uma sala de reparos somente para materiais em uso, sem caráter de preservação.
  • 11%  –  possui seção de Audiovisual > Osasco não possui este tipo de seção.
  • 9%  –   possui seção de Braille > muito embora, em Osasco, exista esta seção, ela é pouco divulgada, portanto, pouco utilizada.
  • 53%  – possui seção/setor Infantil > em Osasco esta seção é bem estruturada, mas poderia ser modernizada.
  • 85%  – do acervo é formado por doações e 15%  por  compra > esta situação também se aplica a Osasco, demostrando descaso na criação de uma política eficiente para desenvolvimento de coleções, comprometida pela falta de investimentos  públicos.
  • 49%  – tem acesso a internet, mas qual é o uso deste serviço? Se apenas 26% oferece este recurso para seus usuários.
  • 91%  –  das BPMs não possuem acervo ou serviços para pessoas com deficiência visual e 92% não oferecem serviços para pessoas com demais necessidades especiais.
  • 89%  –  não oferece atividade de extensão, portanto, esquece da importância de qualificar e promover o bem-estar do cidadão.

   Brasil    (perfil nacional em % de serviços, características de acervo e atividades oferecidas)

  • 44%  –   não possui programação cultural; as que possuem focam a programação em atividades de incentivo à leitura.
  • 100%  –  das bibliotecas possuem acervo concentrado em livros.
  • 84%  –   das bibliotecas possuem acervo de revistas52% coleção de jornais, no entanto, são fontes de informação de uso desprivilegiado, com espaço (hemerotecas), atualização e preservação de acervos comprometidos.
  • 52%  –   das bibliotecas possuem fitas de vídeos, um formato que exige atualização e sem uso na programação cultural.  As Bibliotecas Públicas de Osasco não utilizam esse recurso.

Este quadro geral das Bibliotecas Públicas do Brasil, incluindo Osasco, indica a fragilidade desta instituição e o descaso do poder público, representado pelo pouco ou quase nenhum investimento. Diante desta situação, surgem perguntas: Como inovar dentro deste quadro? Qual o papel do profissional bibliotecário para promover uma mudança?

Entre no site do  Minc e veja o resultado completo do “1º Censo Nacional das Bibliotecas Públicas Municipais – 2010”.

Para realizar é preciso planejar!

Estamos próximos do início de um novo ano (2013…. só para lembrar) e, neste momento, avaliamos o ano que passou e esperamos que o próximo seja repleto de realizações. Mas não podemos esperar que as realizações aconteçam aleatoriamente,  temos que planejar nossas ações para construirmos o nosso futuro e isso se aplica tanto na vida pessoal como na vida profissional.

Neste sentido, investir em realizações para Biblioteca Pública segue o mesmo princípio, ou seja, planejar sempre. Entre os métodos que facilitam construir este planejamento, destacamos aqui o “5W e 2H”, que é um plano de ação que auxilia na solução de problemas, na elaboração de projetos, planos de atividades ou  para quando se deseja atingir uma meta. É uma ferramenta simples e prática, podendo ser aplicada em bibliotecas públicas de qualquer tamanho.

A ferramenta, “5W e 2H” registra de maneira organizada e planejada como serão realizadas as ações, não é por acaso que o nome “5W e 2H” é a sigla em inglês para What (O quê), How (Como), Where (Onde), When (Quando), Why (Porquê), Who (Quem), How Much (Quanto Custa).

E como aplicar o “5W e 2H”? Construa uma planilha, como mostramos no exemplo abaixo, que ajuda entender e esclarecer as ações de seu projeto.

plano de ação 5W2H

Ferramenta 5W2H

No caso das Bibliotecas Públicas é importante ressaltar que tudo que é planejado tem que constar no Plano Municipal, para ser previsto na Lei Orçamentária Anual (LOA), que estabelece as despesas e as receitas que serão realizadas no próximo ano, de acordo com a previsão de arrecadação.  A Constituição Brasileira determina que o Orçamento deve ser votado e aprovado, pelo legislativo, até o final de cada ano.

Por isso, vale a pena checar se o governante inseriu sua biblioteca na LOA e garantiu verba para as ações da Biblioteca Pública. Se não constar na LOA, entendemos que é o momento de mobilização para solicitar este recurso e permitir que realizações possam ser planejadas.

Teste a qualidade da biblioteca pública de sua cidade.

Você saberia definir alguns padrões de avaliação para indicar se a biblioteca pública de sua cidade é nota 10 ou zero? Para refletir sobre este assunto destacamos uma matéria publicada na Gazeta do Povo, que visitou bibliotecas das cinco universidades de Curitiba para fazer um “teste de qualidade” por observação (leia matéria neste link).

O texto é bem interessante e sugere que “as bibliotecas acadêmicas deveriam estar entre os ambientes mais visitados pelo universitário”.  Partindo deste mesmo princípio, igualmente acreditamos que as bibliotecas públicas de sua cidade deveriam ser um local bem visitado pela comunidade, um bom ponto de encontro para estudos, participação de oficinas e eventos diversos. A intenção aqui não é avaliar da mesma forma bibliotecas públicas e universitárias, mas olhar para biblioteca pública e pensar:  esta biblioteca é confortável para os visitantes? oferece bons serviços para comunidade? Como na avaliação realizada, você poderia considerar os seguintes critérios:

conforto: as cadeiras são confortáveis? mesas e sofás são adequados à leitura? os móveis atendem todas as pessoas (crianças, jovens, idosos, portadores de necessidades especiais)?

ambiente: iluminação e ventilação são boas;  prateleiras, móveis e livros são distribuídos de forma agradável, você se sente a vontade quando percorre as áreas da biblioteca? consegue localizar facilmente os materiais que procura ou os setores que precisa?

facilidade na pesquisa: a biblioteca  possui bons computadores para pesquisa e facilita o acesso à internet? você consegue encontrar  rapidamente os assuntos nas prateleiras e localizar livros, revistas e outros materiais?

relações humanas: a ajuda dos profissionais da biblioteca foi útil no momento de sua pesquisa ou dificuldade? você teve contato com o bibliotecário da sua biblioteca?

acervo e serviços: você  encontra livros do seu interesse? ou novos e diferentes materiais (CDs, DVDs, gibis, brinquedos, games, audiolivros, livros em braile etc.)?  os serviços (cópia de materiais, oficinas culturais, áreas de estudo em grupo e individual, treinamento para pesquisa) oferecidos são suficientes?

localização e ambiente externo: a biblioteca fica muito longe da sua casa? o transporte público até a biblioteca é bom (estações de trem ou ônibus ficam próximas)? foi difícil encontrar à biblioteca? existem na biblioteca áreas reservadas para café e alimentação?

Você já pensou nisso?  Faça um teste e avalie sua biblioteca.