Primeiro Censo Nacional das Bibliotecas Públicas Municipais coloca Osasco entre os piores resultados

Pesquisa encomendada pelo Ministério da Cultura apresentou quadro negativo sobre as Bibliotecas Públicas do Brasil e a cidade de Osasco se enquadra nos péssimos indicadores da região Sudeste. Os resultados foram apresentados no “1º Censo Nacional das Bibliotecas Públicas Municipais”, realizado pela Fundação Getúlio Vargas, que tem por objetivo “subsidiar o aperfeiçoamento de políticas públicas em todas as esferas de governo (federal, estadual e municipal) voltadas à melhoria e valorização das bibliotecas públicas brasileiras”. Baseados nesta pesquisa, com dados referentes ao ano de 2009, observamos que as Bibliotecas Públicas de Osasco estão em posição desfavorável em relação aos municípios vizinhos: Barueri, Jandira e Carapicuíba. Historicamente, principalmente nas décadas de 70 e 80, a Biblioteca Pública de Osasco absorvia e apoiava à pesquisa estudantil dessas mesmas comunidades vizinhas. Ao longo das décadas seguintes, de forma natural, estas cidades mais próximas desenvolveram mecanismos de redução da carência informacional, criando e ampliando Bibliotecas Públicas Municipais (BPMs). Porém, em Osasco ocorreu um processo de desequilíbrio entre o aumento da população e novos investimentos na área, conforme mostra o ranking de BPMs do país:

Município

nº de BPMs

População (Censo 2010 IBGE)

Posição no Ranking

   Barueri

11

240.749

   Jandira

2

108.344

   Carapicuíba

6

369.584

230º

   Osasco

3

666.740

253º

O ranking leva em consideração o número de Bibliotecas Públicas oferecidas à população, em cidades com mais de 100 mil habitantes.  O resultado não expõe qualidade, mas implica em carência ou ausência de políticas culturais. Comparativamente, Osasco possui uma população de duas a três vezes maior que Barueri e Carapicuíba, porém, apresenta o menor  número de bibliotecas para atender sua comunidade. Neste contexto, Osasco aparece quase no final do ranking, que vai do 1º ao 260º lugar. Posição, no mínimo, preocupante para uma cidade que se promove como “a 5ª maior população do Estado de São Paulo e o 10º PIB entre os municípios brasileiros”.

Este é apenas um dos indicadores, se levarmos em consideração dados por região e perfil nacional, o quadro de dificuldades se amplia, por exemplo:

Região Sudeste (% de serviços, características de acervo e atividades oferecidas) 

  • 0%  – possui Laboratório de microfilmagem > significa que as Bibliotecas Públicas estão pouco preocupadas com a preservação de longo prazo para documentação histórica.
  • 4%  – possui Laboratório de conservação e restauração > Osasco possui uma sala de reparos somente para materiais em uso, sem caráter de preservação.
  • 11%  –  possui seção de Audiovisual > Osasco não possui este tipo de seção.
  • 9%  –   possui seção de Braille > muito embora, em Osasco, exista esta seção, ela é pouco divulgada, portanto, pouco utilizada.
  • 53%  – possui seção/setor Infantil > em Osasco esta seção é bem estruturada, mas poderia ser modernizada.
  • 85%  – do acervo é formado por doações e 15%  por  compra > esta situação também se aplica a Osasco, demostrando descaso na criação de uma política eficiente para desenvolvimento de coleções, comprometida pela falta de investimentos  públicos.
  • 49%  – tem acesso a internet, mas qual é o uso deste serviço? Se apenas 26% oferece este recurso para seus usuários.
  • 91%  –  das BPMs não possuem acervo ou serviços para pessoas com deficiência visual e 92% não oferecem serviços para pessoas com demais necessidades especiais.
  • 89%  –  não oferece atividade de extensão, portanto, esquece da importância de qualificar e promover o bem-estar do cidadão.

   Brasil    (perfil nacional em % de serviços, características de acervo e atividades oferecidas)

  • 44%  –   não possui programação cultural; as que possuem focam a programação em atividades de incentivo à leitura.
  • 100%  –  das bibliotecas possuem acervo concentrado em livros.
  • 84%  –   das bibliotecas possuem acervo de revistas52% coleção de jornais, no entanto, são fontes de informação de uso desprivilegiado, com espaço (hemerotecas), atualização e preservação de acervos comprometidos.
  • 52%  –   das bibliotecas possuem fitas de vídeos, um formato que exige atualização e sem uso na programação cultural.  As Bibliotecas Públicas de Osasco não utilizam esse recurso.

Este quadro geral das Bibliotecas Públicas do Brasil, incluindo Osasco, indica a fragilidade desta instituição e o descaso do poder público, representado pelo pouco ou quase nenhum investimento. Diante desta situação, surgem perguntas: Como inovar dentro deste quadro? Qual o papel do profissional bibliotecário para promover uma mudança?

Entre no site do  Minc e veja o resultado completo do “1º Censo Nacional das Bibliotecas Públicas Municipais – 2010”.

Sabe como avaliar o retorno financeiro $$ das bibliotecas públicas para sua comunidade?

Estudo de caso (veja relatório original pdf, em inglês) promovido pela Biblioteca Estadual de Queensland, na Austrália, considera investimentos do governo em bibliotecas públicas e avalia qual o retorno financeiro deste investimento para sua comunidade. Segundo pesquisa, para cada US$ 1 investido na biblioteca pública da região a comunidade tem um retorno de US$ 2,3, ou seja, além do impacto social são gerados dividendos financeiros para sociedade. A pesquisa também analisa bibliotecas públicas de sete outras regiões da Austrália, que apresentam um perfil demográfico diferente, mas resultados de custo-benefício ainda melhores.

Como foi feito o estudo?

Para preparar esta análise, publicada em setembro de 2012, foram considerados parâmetros não apenas econômicos, mas também questões sociais e ambientais associadas aos serviços de bibliotecas públicas.  A avaliação inclui benefícios como:

  • iniciativas de alfabetização encorajando pessoas de todas as idades ao prazer da leitura.
  • melhora na educação, desenvolvimento profissional, saúde e bem-estar relatado pelos habitantes da região.
  • serviços e programas pré-escolares (como contadores de histórias), clubes do livro e aulas de informática para idosos.
  • papel da biblioteca como equipamento e local de interesse para cidade, vila ou comunidade.
  • interação social: bibliotecas como pontos de encontro para a comunidade, sejam os eventos planejados ou casuais.
  • economia sustentável, uma vez que o empréstimo de livros é um dos exemplos originais para promover bom uso e reciclagem.

Ainda para avaliar os benefícios de serviços de biblioteca, com base em quase 5 mil entrevistas, os usuários da biblioteca responderam três perguntas:

  1. quanto você pagaria por serviços da biblioteca que poderia ter de graça? O cálculo da resposta dos usuários estimou um valor médio de 394 dólares por ano; considerando como um negócio privado o empréstimo de livros,  CDs, acesso a internet e eventos promovidos.
  2. quanto tempo, custo e esforço você levou para chegar na biblioteca local e voltar para casa? Os usuários avaliados estimaram uma média de US$ 1,24 por viagem para a biblioteca.
  3. quanto você estaria disposto a pagar para manter os serviços da biblioteca em sua comunidade? O resultado para essa pergunta foi uma média de US$ 52 por ano (essa questão também foi feita para não usuários).

O estudo também realizou uma avaliação do impacto econômico, identificando como as bibliotecas públicas estimulam as economias regionais por meio de gastos com edifícios, materiais e recursos, empregos e impostos devolvidos aos cofres públicos e os gastos ativados com o uso dos serviços da biblioteca pública. O estudo ainda contém os hábitos de uso da comunidade na biblioteca pública e as oportunidades de acesso à informação promovidos pela instituição.

Quem investe em bibliotecas públicas? Quem acredita em um futuro melhor para sua comunidade e na equidade do acesso à informação.

O estudo (que podemos tomar como referência) apresenta evidências positivas e relevantes, mas muitas vezes invisíveis ou ignoradas por governantes, de que investir em bibliotecas públicas é um bom negócio e um investimento certo no capital humano. Mas o caso ilustra uma situação de investimento real e, infelizmente, aqui no Brasil, a maioria das bibliotecas públicas não possui qualquer investimento contínuo, fundo ou dotação orçamentária definida.  Neste sentido, como podemos visualizar a ausência deste investimento? Quem sabe nossas evidências deveriam estar baseadas no cálculo do prejuízo que as administrações públicas tem causado para suas comunidades, quando desconsideram a importância destes investimentos e seu impacto na qualidade de vida do cidadão.