XXV CBBD

Terminou quarta-feira (10/07) o XXV CONGRESSO BRASILEIRO DE BIBLIOTECONOMIA, DOCUMENTAÇÃO E CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO (CBBD), que este ano foi realizado em Florianópolis (Santa Catarina) e iniciou dia 07/07. Foram quatro dias de apresentações com intensa discussão, troca de experiências, ideias inovadoras, palestras motivadoras, críticas, desabafos e reflexões de profissionais da informação de áreas diversas. Paralelamente, o evento também abrigou outros dois encontros: o III Fórum Nacional de Bibliotecas Públicas e o 1º Fórum Biblioteconomia Escolar: Pesquisa e Prática. Além disso, o sistema CFB/CRB incluiu na programação um seminário exclusivo sobre “Ética nas Profissões”, com o propósito de repensarmos as práticas do profissional bibliotecário. Tudo junto e misturado.

Por conta da diversidade de assuntos tratados e da impossibilidade de participarmos de todos os eixos temáticos do evento, fazemos abaixo um pequeno comentário das principais preocupações e mensagens disseminadas.

Abertura do Congresso:

Durante abertura do evento foi lançada a campanha (advocacy) para valorização das bibliotecas brasileiras: “Eu Amo Biblioteca, Eu Quero”. Realizada pela FEBAB, organizadora do evento, esta campanha propõe um esforço profissional para adoção de um movimento de valorização do papel social das bibliotecas e sensibilização da sociedade para apropriação deste espaço de cultura. Um estande com camisetas, canecas e bolsas promoveu a marca da campanha:

Interessados podem obter pelo site do movimento o material de divulgação ou, em breve, comprar pela loja virtual da FEBAB produtos da campanha. Primeira impressão: acreditamos que o movimento foi bem aceito pelos profissionais, o símbolo da campanha também, mas não percebemos engajamento, propostas de mobilização ou propagação de estratégias para campanha.

Temas, mensagens e reflexões: “Bibliotecas, Informação, Usuários – Abordagens de transformação para a Biblioteconomia e Ciência da Informação”

Muito embora a temática central do evento destaque o usuário, a maior parte das apresentações esteve concentrada na questão da tecnologia e seus impactos na área e nas competências profissionais. A impressão é que ainda entendemos muito pouco sobre as pessoas que frequentam bibliotecas.

As comunicações foram agrupadas em três eixos temáticos:

  1. Tecnologias de informação e comunicação: um passo a frente. Trabalhos apoiados na composição de informação + tecnologia + usuários. Impressão geral: muitas experiências de sucesso e poucas revelações de erros, a teorização apresentada indica uma apropriação de tecnologias seguindo tendências do mercado, inovando pouco e com impacto social diluído. Muitos olhares para: Web 2.0, arquitetura da informação, uso de redes sociais, interface para celular, acesso, tratamento, comunicação e transferência de informação.
  2. Transcompetências: diferenciais dos usuários e dos profissionais da informação. Foram discutidas (principalmente) as novas competências profissionais baseadas no aprendizado de tecnologias e interação em ambientes digitais com usuários nativos. Impressão geral: temos pouca habilidade com ferramentas digitais, dificuldades com o trabalho colaborativo e falhas na interação com os nativos da era digital. As ferramentas são utilizadas mais para comunicação e bem menos para ação. Poucas referências aos conceitos de liderança, advocacy e mediação, porém, destaque para relação entre biblioteca e memória, assim como experiências de humanização, saúde e bem-estar, por meio da biblioterapia.
  3. Bibliotecas, Serviços de Informação & Sustentabilidade. Comunicações focadas na gestão e qualidade de serviços, propostas de avaliação, métricas, marketing e ações culturais. Impressão geral: experiências que indicam o quanto precisamos evoluir na relação “humano-biblioteca” e na urgência de propor condições de sustentabilidade.

veja aqui os vídeos das conferências.

Fóruns:

Bibliotecas Públicas: Apresentação de experiências sensíveis e focadas na prática cultural e mediação da leitura. O Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas prepara uma revisão na base de dados de bibliotecas brasileiras e desenvolve uma nova aplicação que, esperamos, seja para promover visibilidade, monitoramento das instituições, controle de investimentos e formação de uma rede de ações e boas práticas. Infelizmente, não percebemos grandes mudanças e inovações na área, assim como o discurso continua apoiado no esforço pessoal, dificuldades financeiras e recorrente descaso político.

Biblioteconomia Escolar: Preocupações concentradas, com toda razão, na lei de universalização das bibliotecas nas instituições de ensino, na revisão da relação entre aluno, escola e biblioteca e nas dificuldades de encontrar um modelo norteador.

Visão geral e alguns apontamentos:

Devido a diversidade e quantidade de trabalhos, seria impossível criar um relato detalhado do evento. De qualquer forma, esperamos que a FEBAB disponibilize no site todo material das apresentações. Relatamos aqui uma percepção sobre este encontro e, como resultado da participação, algumas reflexões profissionais:

  • temos discutimos muito pouco a ética e o bem-estar profissional
  • desconhecemos a dimensão da Lei de Acesso à Informação para bibliotecas
  • ainda não entendemos a proposta de trabalho colaborativo, conectividade e interatividade
  • carecemos de boas práticas para uso de mídias sociais
  • nossa competência como mediador entre informação e usuário precisa ser revista
  • temas como memória, biblioterapia, bibliotecas públicas e escolares precisam ser fortalecidos em nossa área
  • cresce o mercado de livros digitais, mas pouco sabemos sobre seu uso
  • recursos educacionais abertos, conhecimento livre e ensino a distância são novas realidades e precisam ser apropriados pela área
  • o espaço físico da biblioteca precisa atender características estruturais: flexibilidade, funcionalidade, interatividade e segurança

As mensagens transmitidas no congresso possuem vários tons (alerta, política, motivação, sensibilização) e traduzem bem o momento atual: de revisão profissional e mudança de comportamento; de olhar para o futuro; de aceitação das novas tecnologias; de mudança da geração de usuários; de promoção da criatividade; de urgência em ações, mobilizações e união profissional. Percepções do momento que foram captadas em duas citações inspiradoras:

“Nenhum de nós é tão inteligente como todos nós juntos” (Warren Bennis)

“Os analfabetos do futuro não serão aqueles que não sabem ler ou escrever, mas aqueles que não sabem aprender, desaprender, e reaprender.” (Alvin Tofler)

De tudo o que conseguimos acompanhar, estas duas frases resumem bem o sentimento do momento: pensar em grupo, aprender, experimentar e agir em rede.