PMLLLB de SP. Você conhece este plano?

Uma nova proposta para o Plano Municipal do Livro e da Leitura (PMLL) de São Paulo adicionou duas novas letras (L e B) e destacou duas outras importantes dimensões de atuação: Literatura e Biblioteca, que promovem amplo acesso à informação e desenvolvimento humano. A discussão sobre este novo projeto, baseado no eixo Livro-Leitura-Literatura-Biblioteca, foi intensificada em dezembro do ano passado, quando questões fundamentais sobre o tema foram apresentadas no Seminário sobre o Plano Municipal do Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca (PMLLLB) de São Paulo. Leia abaixo um resumo da temática desse evento, que é parte de uma série de encontros públicos para construção democrática e colaborativa do plano.

Grupo de Trabalho do PMLLLB de SP [Mesa 1]

Apresentou o andamento dos trabalhos para elaboração do PMLLLB de SP. Formado para discutir políticas públicas e promover a redação democrática do plano, o GT do PMLLLB pretende até abril de 2015 concluir sua elaboração e, na sequência da aprovação, iniciar sua implementação. Para acompanhar a elaboração do plano, participar do debate e sugerir propostas, consulte: http://pmlllbsp.com/

Democratização do acesso [Mesa 2]

Conferencistas consideraram as novas tecnologias e, por conta de seu impacto, a mudança no perfil de leitores e consumidores de informação. Entrou em questão a necessidade de rever ações de interação com a comunidade e o espaço promotor da leitura, como o exemplo inovador da Biblioteca Parque Estadual do RJ. Além disso, repensar as condições legais já existentes e pouco exploradas, que permitem tornar os livros em suportes mais acessíveis e refletir sobre os laços de contato com o leitor que, de maneira simplista, são pensados como frio (digital e remoto) e quente (físico e presencial).

Fomento à leitura e à formação de mediadores [Mesa 3]

Apoiada na experiência de vida e ativismo dos conferencistas Otávio Jr. (Biblioteca do Complexo do Alemão), Sergio Vaz (poeta e fundador da Coperifa) e Cristino Wapichana (Coordenador do Núcleo de Escritores e Artistas Indígenas), foi destacado o essencial papel do mediador da leitura e da valorização de ações culturais decentralizadas e periféricas, que promovem a diversidade, expressividade e abrangência da cultura brasileira. Baseado nos depoimentos, fica claro que desenvolver a competência de mediador exige um grande esforço de relacionamento com leitura e comunidade, consequentemente, requer dos gestores públicos planejamento e ações mais eficazes para formação deste profissional mediador.

Valorização institucional da leitura e incremento de seu valor simbólico [Mesa 4]

As abordagens nesta mesa formaram uma visão positiva e emocional da leitura, mas também observaram as dimensões de economia, cidadania e valor simbólico. O livro, Inserido nestas dimensões, foi apontado como instrumento que não pode sobrepor a diversidade cultural de um país. Por sua vez, a instituição Biblioteca precisa repensar seus mecanismos de promoção da leitura (e do livro) respondendo uma pergunta fundamental: leitura é para minorias? Partindo desta questão, o convidado Filipe Leal (bibliotecário e docente na Universidade Autônoma de Lisboa, Portugal) propõe que a Biblioteca seja um aliado estratégico no processo de leitura e, para isso, expresse as diferentes formas de literacia (letramento literário, informacional e digital) e também fortaleça o discurso de promoção da leitura considerando que: pessoas precisam ler, possuem perfis diferentes e fazem diferentes leituras do cotidiano. Por este caminho, ao transformar a Biblioteca em aliado, é necessário considerar algumas realidades: o plano nacional de leitura ocorre na sala de aula, sendo assim, Bibliotecas públicas e escolares são rede de apoio; dados concretos e estatísticas são essenciais, como por exemplo indicadores do Programa Internacional para Avaliação de Estudantes – PISA, para mostrar de forma clara o impacto da leitura e demonstrar que o sucesso do plano esta baseado em pessoas. Por sua vez, pensando também nas organizações políticas que desenvolvem e administram estes planos, Jéferson Assunção (Secretaria de Cultura do Rio Grande do Sul) sugeriu a mudança do formato de sistema, organizado por elementos distantes e interconectados, para o formato de rede, mais ágil e dinâmico, visando ampliar a cooperação entre diversas organizações. Por fim, apresenta o princípio norteador de um plano nacional: o livro com destaque no imaginário coletivo. Como? Estabelecendo projetos e ações concretas: feiras de livros, bibliopraças, família de leitores, formação de leitores culturais e ampliação do acesso ao livro.

Desenvolvimento da economia do Livro [Mesa 5]

“O livro não é uma simples mercadoria”. Esta básica proposição esta inserida na complexa discussão sobre a busca de equilíbrio entre a venda de um livro e sua capacidade de promover a leitura. Atentos ao grande mercado para venda de livros, debatedores destacaram a necessidade de regulamentação do varejo, nos moldes da “lei do preço fixo” aplicada em outros países (França, Argentina, Alemanha etc.), que proteja pequenos editores e promova a bibliodiversidade, assim como permita a circulação de novas ideias e se desvie da massificação de um mesmo título, quase sempre destacado artificialmente pela estrutura do mercado editorial. Para fortalecer a relação mercado-livro-leitura, políticas específicas precisariam ser criadas para cada sistema (criativo, produtivo e jurídico) e a promoção do produto (livro) intensificada, como exemplos já praticados: feiras, campanhas de doação por redes sociais, uso do “cheque livro”, bolsas de intercâmbio para participação em feiras internacionais, premiações do leitor e livreiro do ano, eventos que promovam mais reflexões sobre a leitura, capacitação de bibliotecários e interação com editores. Por fim, valorização de atividades da economia criativa (arte, cultura, mídias eletrônicas e design) e sua relação com a economia do conhecimento.

Literatura [Mesa 6]

Retomar grupos e projetos para estudo e promoção da literatura foi o ponto de discussão desta mesa. Inserida em um plano político, a dimensão da literatura se constrói por meio do entendimento de textos, em prosa ou verso, bem como sua relação com nossa história social e a transmissão de registros de experiências humanas que formam nossa cultura. Por este aspecto, há um elo natural entre livro-leitura-literatura que torna a estrutura do plano mais completa. No entanto, ao integrar no plano municipal de SP a dimensão da literatura, ou outras influências, como por exemplo o poder da oralidade, observamos a carência de análises e ações mais concretas para entendimento deste processo. Esta discussão sobre o eixo da literatura foi mais um passo na direção deste entendimento.

Cultura e educação: experiências de integração [Mesa 7]

Duas inspiradoras e motivadoras experiências são expostas nesta mesa: Escola Teia Multicultural e Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD). Baseadas na prática e constante busca por maneiras diferentes de lidar com educação e cultura, as experiências apresentadas ampliaram a discussão sobre a delicada relação entre formação tradicional e novos conhecimentos. Neste contexto, surgiram várias indagações: como fazer algo de maneira diferente e inovadora? como analisar a diferença entre o hábito e o prazer pela leitura? como criar um time para pensar numa “cidade educativa”? Sem resposta simples ou melhor direção, uma analogia feita por Tião Rocha (presidente do CPCD) dá a dimensão do esforço de mudança: “Para educar uma criança é preciso convocar uma aldeia”. Em outras palavras, esta “aldeia” significa o envolvimento de pessoas, instituições (de arte, cultura, esporte e lazer) e espaços públicos, dentro e fora da escola, com intenção de ampliar as oportunidades de aprender e ensinar, ou seja, uma comunidade com grande potencial humano para transmitir e compartilhar saberes cotidianos.

Pensar o PMLLLB exige esforço semelhante e as discussões propostas neste evento indicaram a complexidade e relevância da ação coletiva. Acompanhe o plano da cidade de SP e também divulgue outros planos municipais. Em Osasco, o Movimento Advocacy divulgou ao secretário municipal da Cultura o “Plano Municipal do Livro, Leitura e Biblioteca”, mas não obteve manifestação dos gestores públicos. Por isso, a participação e apoio da comunidade é essencial para que os planos sejam discutidos, implantados e continuem em pauta.

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Bibliotecas Públicas fora do Balanço Social

Por princípio, cada cidadão que paga impostos é um investidor na organização e vida de sua cidade, estado e país. Consequentemente, para perceber quais os objetivos econômicos, sociais e ambientais de seu investimento, este cidadão precisa entender como seu dinheiro esta sendo aplicado. Para isso, cabe aos gestores públicos a prestação de contas destes investimentos que, por exemplo, pode ser feita pela publicação de um Balanço Social – modelo utilizado para promover transparência de ações e propiciar um diálogo entre governo e sociedade. Além do caráter administrativo, observar as informações dos balanços divulgados por órgãos públicos ajuda comparar nossa percepção da vida na cidade com a percepção da política local e pensar: as ações do governo deixaram nossa vida melhor?

Recentemente, a Prefeitura Municipal de Osasco circulou uma revista com o Balanço 2013 da “atual” administração pública da cidade.  Em resumo, o documento apresenta um conjunto de boas ações que criam um panorama das ultimas melhorias realizadas na cidade.  Uma lista de obras importantes, reformas e outros investimentos registram positivas ações, no entanto, seu conteúdo provoca uma sensação de estranhamento e uma reflexão: o que lemos no balanço se parece com o que vemos ou sentimos sobre a cidade? Muito embora os projetos e ações apresentados sinalizem um avanço, uma percepção contrária dilui esta positividade.

No caso da Cultura, área na qual as Bibliotecas Públicas estão atreladas, conseguimos perceber, pela ausência de informações, que muito pouco (ou quase nada) foi investido para melhorar os serviços de apoio à comunidade oferecidos pelas bibliotecas municipais.  A maioria dos destaques apresentados no balanço são eventos de entretenimento e ações de política cultural, sugerindo que nenhum projeto expressivo para Bibliotecas Públicas aconteceu. Uma situação no mínimo estranha, já que a principal biblioteca da cidade completou 50 anos em 2013 e as bibliotecas ramais completaram 10 anos de existência em 2012. Será que não existem ações, minimamente expressivas, desenvolvidas para Bibliotecas Públicas?

Em contraste, informação divulgada sobre o balanço municipal 2013 registra que a cidade de Osasco foi elevada para a 11ª posição no ranking de municípios com maiores PIBs. Boa notícia? Sim. No entanto, comparativamente, nos remete para recente análise crítica feita sobre a cidade de São Paulo, que estaria cada vez mais rica, porém, empobrecida socialmente. No texto “Pobre cidade rica” (leia íntegra da matéria publicada no jornal O Estado de S. Paulo) o sociólogo José de Souza Martins reflete sobre a crise urbana e um de seus pensamentos esclarece:

“Amontoados de prédios não faz uma cidade. Cidade é um modo de vida em que o redesenho e a racionalização do espaço deve tornar a vida mais fácil, mais simples. Deve agregar qualidade à existência, rapidez, conforto, bem-estar, alegria”.

Considerar a essência dessa premissa, assim como a percepção de satisfação do cidadão em todas as áreas de atuação dos gestores públicos, parece uma boa medida para avaliar o Balanço Social de uma cidade. No final das contas, indicadores de riqueza e bem-estar social precisariam ser diretamente proporcionais.

Responsabilidade Social e Biblioteca Pública

Responsabilidade social é um tema permanente para Bibliotecas Públicas preocupadas com o desenvolvimento cultural de pessoas e da comunidade onde ela está inserida.

Pensando nisso, e na proximidade do final de ano e início do tradicional período de férias em família e recesso escolar, observamos que alguns bibliotecários e gestores de cultura estão preparando uma programação especial para jovens e adultos que terão mais tempo livre. Algumas instituições, tais como: Biblioteca Pública do Paraná, Bibliotecas Municipais de São Paulo, Biblioteca São Paulo, Biblioteca Municipal de Jundiaí, já apresentam um programa de férias com intenção de estimular a vida cultural local, tanto nos fins de semana como em horários estendidos durante a semana. Por mais simples que seja a programação, este tipo de planejamento é um sinal claro de responsabilidade social e sintonia com as necessidades da comunidade. Como exemplo oposto, algumas bibliotecas desconsideram qualquer tipo de programação de férias e ainda optam pela redução de horário e fechamento aos finais de semana, como é o caso da Biblioteca Pública Monteiro Lobato de Osasco, entre outras.

Uma boa maneira de avaliar o compromisso social de uma Biblioteca Pública é considerar quanto de esforço as instituições e gestores empregam em suas atividades para promover transformações de ordem econômica, social e cultural. Por princípio, este papel é natural destas instituições públicas e de seus profissionais. No entanto, as duas (opostas) situações mencionadas mostram que precisamos urgentemente de indicadores de responsabilidade social para Bibliotecas Públicas e, neste sentido, ações mais estratégicas do Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas de SP (SisEB). Como sugestão, apenas para ampliarmos nossa percepção e simularmos uma medida desse grau de comprometimento, podemos nos apoiar nas missões estabelecidas pelo Manifesto da IFLA/UNESCO. Por exemplo, faça uma checagem rápida tentando responder as seguintes perguntas sobre sua Biblioteca Pública:

1. Sua biblioteca cria e fortalece os hábitos de leitura nas crianças, desde a primeira infância?

2. Sua biblioteca apoia a educação individual e a autoformação, assim como a educação formal a todos os níveis?

3. Sua biblioteca assegura a cada cidadão meios para evoluir de forma criativa?

4. Sua biblioteca estimula a imaginação e criatividade das crianças, jovens e adultos?

5. Sua biblioteca promove o conhecimento sobre a herança cultural de sua cidade, bem como o apreço pelas artes e pelas realizações e inovações científicas?

6. Sua biblioteca possibilita para sua comunidade o acesso a todas as formas de expressão cultural das artes do espetáculo?

7. Sua biblioteca fomenta o diálogo intercultural e a diversidade cultural na sua cidade?

8. Sua biblioteca apoia a tradição oral e o registro de outras manifestações de memória?

9. Sua biblioteca assegura o acesso dos cidadãos a todos os tipos de informação da comunidade local?

10. Sua biblioteca proporciona serviços de informação adequados para pessoas com necessidades especiais, assim como para empresas locais, associações e grupos de interesse?

11. Sua biblioteca facilita o desenvolvimento da capacidade de utilizar a informação e novas tecnologias digitais?

12. Sua biblioteca apoia, participa e, se necessário, cria programas e atividades de alfabetização/inclusão para os diferentes grupos etários da comunidade?

Responder estas questões pode ajudar estabelecer uma medida de responsabilidade social (maior ou menor) entre biblioteca e comunidade. E, possivelmente, responder uma pergunta-chave: Sua Biblioteca Pública atende interesses e necessidades da sua comunidade?

Bibliotecas Possíveis exigem ações concretas

Referenciais positivos e inovadores são importantes em qualquer área do conhecimento e para profissionais de Bibliotecas Públicas não é diferente. Neste sentido, alguns casos bem sucedidos oferecem modelos modernos (ou de conceitos mais democráticos) que podem nos ajudar a refletir sobre o papel social da Biblioteca Pública e sua delicada relação com a comunidade. Para promover esta reflexão e divulgar um caso de inovação, foi realizado no Centro de Pesquisa e Formação SESC Vila Mariana, no dia 30 de Agosto de 2013, um encontro com o tema Bibliotecas Possíveis”. O evento reuniu para debate profissionais que planejaram o inspirador modelo colombiano de Bibliotecas-Parques: Glória Maria Rodrígues, consultora do projeto; Luiz Bernardo Yepes, chefe do Departamento de Bibliotecas da Comfenato Antioquia; Carolina Jaramillo Idárraga, coordenadora do Programa da Fundación EPM (Empresas Públicas de Medellín), Ana Montoya Velásquez, especialista em Gestão Social do EPM; o grupo foi mediado por Elisa Machado, docente da UNIRIO e coordenadora geral do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas – SNBP/FBN-MinC.

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Palestrantes colombianos: Carolina, Ana Maria, Glória Rodriguez, Luiz Bernardo e [à direita] Miriam Pessoa, bibliotecária que integra o Movimento Advocacy em Bibliotecas Públicas de Osasco.

A experiência dos profissionais colombianos foi compartilhada em duas mesas de debate:

Mesa 1: apresentou o conceito e proposta das Bibliotecas-Parques de Medellín.

Estas bibliotecas foram planejadas para atender pontos estratégicos da cidade de Medellín (Colômbia) e instaladas com infraestrutura necessária para permitir desenvolvimento local e regional, facilitar o acesso em lugares menos favorecidos da cidade, criar políticas de incentivo à leitura e introduzir projetos de Bibliotecas Públicas em áreas de alta vulnerabilidade física e social, anteriormente marcadas pelo narcotráfico, violência e pobreza.

Mesa 2: discutiu a prática profissional apoiada na relação biblioteca-inovação-comunidade.

As Bibliotecas-Parques são equipamentos urbanos que integram a comunidade local com serviços tradicionais de biblioteca, informação local, fomento à leitura, oferta lúdica, recreativa e cultural, espaços para o encontro e participação comunitária, empreendimentos locais, formação básica profissional, educação ambiental, memória coletiva, entre outros. Seu objetivo é melhorar a qualidade de vida do cidadão e fortalecer o livre desenvolvimento através da ampliação do acesso à cultura, educação e tecnologias de comunicação, prioritariamente nas zonas com maior população e áreas com características sociais desfavoráveis.

Estrutura compartilhada e colaborativa

A rede de Medellín é um conjunto de bibliotecas que se comunicam entre si, compartilham recursos, esforços, conhecimentos e experiências. Seu objetivo é melhorar as condições educativas e culturais das comunidades que atendem, promovendo a cidadania e a diversidade cultural. Utilizam tecnologia para promover interconexão e apresentar aos seus usuários os recursos disponíveis nas 63 bibliotecas interligadas, tais como livros digitais de conteúdo multidisciplinar e enciclopédico, além de criar novas oportunidades e desenvolvimento do trabalhador. Neste modelo, o papel do profissional bibliotecário não é simplesmente trabalhar para comunidade, mas com a comunidade.

Políticas públicas inovadoras, economia participativa e integração social

Para viabilizar espaço físico, este projeto (iniciado em 2006) exigiu a desapropriação de casas, que cederam lugar para nove modernas construções de Bibliotecas-Parques e beneficiaram aproximadamente 72 bairros com educação, recreação e cultura. O modelo de gestão das bibliotecas adotou a seguinte estrutura: Bibliotecas Públicas recebem apoio da Comfenalco-Antioquia (que representa o setor privado), Bibliotecas Federais são mantidas pelo Banco da República, Bibliotecas Populares são gerenciadas e sustentadas pela própria comunidade e as Bibliotecas-Parques mantidas com o dinheiro dos impostos municipais. Apoiado em estudos sociais e investimentos político e econômico, este projeto permitiu fortalecimento institucional, apoio de empresas, infraestrutura para obras públicas, tecnologia e estratégias inovadoras para cultura digital: blogs, e-books, objetos de aprendizagem, aplicações para rede sociais e geração de comunidades etc. Neste cenário, o bibliotecário é valorizado pelo Poder Público que oferece condições de trabalho para capacitação, treinamento, plano de carreira, melhores salários e, consequentemente, promove uma positiva imagem profissional para Sociedade Civil.

Incentivo à leitura ampliado

A partir dessa convergência de esforços, o projeto incentivou outras duas ações: dinamização do Plano Nacional de Leitura e Escrita (PNLE) que, com representações governamentais e privadas, reestruturou e fortaleceu as bibliotecas existentes; elaboração de proposta para criação do Observatório da Leitura, com função de apoiar políticas públicas de leitura e escrita, assim como planejar eventos ligados ao livro e apoiar programas existentes como: Ler em Família, Caixas Viajantes, Paradeiros (Quiosques) em Praças, Livros Correio e outros de promoção da leitura.

Bibliotecas possíveis no Brasil

Este modelo colombiano, referência internacional de políticas públicas aplicadas em bibliotecas, evidencia o quanto a gestão brasileira de Bibliotecas Públicas precisa de inovações. Carecemos de gestores públicos conscientes, investimentos financeiros equilibrados, políticas culturais eficientes, planos de incentivo à leitura em todas as esferas de governo, parcerias com a iniciativa privada e maior diálogo com a comunidade. Em resumo, precisamos de esforços reais para almejar “Bibliotecas Possíveis”.

No Brasil, nossa primeira referência é a Biblioteca Parque Manguinhos, que fica no Rio de Janeiro e foi inaugurada em 2010. Para conhecer este trabalho acesse: http://www.cultura.rj.gov.br/espaco/biblioteca-parque-de-manguinhos

Se você quiser mais detalhes sobre a experiência colombiana e os conceitos que guiaram este projeto de política cultural e formação do cidadão para uso de informação em Bibliotecas Públicas, leia o artigo (em espanhol, pdf): RENDÓN GIRALDO , NORA ELENA & HERRERA CORTÉS , Rocio. Hacia una formación de usuarios de la información en entornos locales. Información, cultura y sociedad: Revista del Instituto de Investigaciones Bibliotecológicas, No. 19 / 2008. Disponível em: http://www.scielo.org.ar/pdf/ics/n19/n19a03.pdf

Consulte também conteúdo (pdf) da palestra: “Bibliotecas públicas e comunidade: das boas intenções às ações“, de Glória Maria Rodriguez, que estará em dezembro no 6º Seminário Internacional de Bibliotecas Públicas e Comunitárias.

Bibliotecas Públicas estão desamparadas pela área de Cultura

“Uma Política de Estado para a Cultura: Desafios do Sistema Nacional de Cultura, na organização da gestão e no desenvolvimento da cultura brasileira”. Este foi o tema central da 3ª Conferência Estadual de Cultura, que aconteceu nos dias 11 e 12 de setembro, no Memorial da América Latina (SP). O evento contou com a participação de 420 municípios paulistas e aproximadamente mil pessoas, entre eles 849 dirigentes culturais e 168 dirigentes de cultura, reunidas para discutir propostas e ações culturais de impacto estadual e nacional. Os eixos de trabalho seguiram o mesmo padrão das conferências municipais:

I – IMPLEMENTAÇÃO DO SISTEMA NACIONAL DE CULTURA

II – PRODUÇÃO SIMBÓLICA E DIVERSIDADE CULTURAL

III – CIDADANIA E DIREITOS CULTURAIS

IV – CULTURA E DESENVOLVIMENTO

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Conferência Estadual de Cultura

O primeiro dia (11) foi dedicado para solenidades de abertura oficial do evento e somente no dia 12 foram iniciadas as discussões que, de forma exaustiva e pressionadas pelo tempo, trataram do regimento que orienta a conferência, discussões por eixo temático, que durou até o início da noite e, finalmente, a eleição dos delegados e aprovação em plenária das propostas de impacto Estadual e Nacional, um processo que só terminou 1h da manhã, madrugada do dia 13.

Por sua característica democrática, o evento permitiu o diálogo entre agentes de cultura de diversas regiões de SP. Em princípio, seria uma boa oportunidade para estabelecer parcerias com representantes municipais e expor propostas para valorização das Bibliotecas Públicas, no entanto, a impressão final desse diálogo foi que Bibliotecas Públicas não possuem representatividade, são invisíveis aos olhos de gestores e sua missão como instituição pública não é reconhecida pela área de Cultura.

Para o tema “bibliotecas”, pouquíssimas foram as propostas que os municípios enviaram e aprovaram para aplicação Estadual ou discussão na Conferência Nacional de Cultura. Apenas como referência, havia uma proposta de modernização de biblioteca, que não foi para a votação e outra que se referia a criação de “bibliotecas multimídia”, mais acessíveis e inclusivas, com maior aquisição de livros e computadores para leitura em Braille e áudio descrição. Como consequência, fragilizadas pelo desamparo, Bibliotecas Públicas ficaram apartadas da construção de políticas da área de Cultura que, oficialmente, orienta seu funcionamento, mas não reconhece sua função sociocultural e não oferece recursos que permitam sua adequação às necessidades do cidadão. Para reverter esse quadro, de ausência de representatividade, entendemos que seria preciso uma articulação maior entre bibliotecários e organismos representantes de classe para sensibilizar, unir profissionais e construir pontes para participação em eventos como este, que promovem políticas públicas de cultura.

De qualquer forma, graças ao grande apoio obtido pelo abaixo-assinado divulgado neste blog, as propostas para Bibliotecas Públicas encaminhadas à Conferência Estadual resultaram em uma “moção de aprovação” dessas propostas (veja  pdf mocao_bibliotecas) e seu encaminhamento à Conferência Nacional de Cultura, que será realizada entre os dias 26 a 29 de novembro. Para validar esta moção também foi necessário o apoio dos conferencistas, que foi obtido com a assinatura mínima de 100 delegados. Neste sentido, fazemos um agradecimento especial ao Sr. Reinaldo Custódio Silva (delegado nato, que luta para regulamentação da profissão de artesão) que apoiou a causa das Bibliotecas Públicas e sensibilizou pessoas, conversando com cada um dos conferencistas, mostrando a importância de assinarem a “moção de apoio” às propostas do Movimento Advocacy. Por fim, agradecemos bibliotecários, professores, estudantes, familiares, amigos e interessados pela causa, enfim, todos que tornaram possível encaminhar propostas que incluam as Bibliotecas Públicas na pauta da Conferência Nacional.

Conheça as propostas aprovadas na Conferência Estadual de Cultura (Estadual e Federal) e saiba quem são os delegados estaduais eleitos para participar da Conferência Nacional.

Apoie propostas para valorização das Bibliotecas Públicas

Você acredita no papel social das Bibliotecas Públicas?

Nós acreditamos!

Mas para fortalecer este papel precisamos de apoio e mobilização.


Dias 11 e 12 de setembro acontece em SP a Conferência Estadual de Cultura. Este evento pretende debater políticas e ações culturais para os próximos anos e, por isso, vamos apresentar na conferência propostas para valorização das Bibliotecas Públicas focadas na adoção de melhores políticas culturais e criação do Fundo Municipal de Bibliotecas (para repasse de verbas municipais, estaduais e federais) que permitam: renovação de acervo, projetos de incentivo à leitura, programas de preservação da memória, aperfeiçoamento de profissionais da informação, manutenção preventiva dos prédios, modernização de equipamentos e tecnologias para acesso à informação. Além do impacto estadual, as propostas aprovadas neste evento serão encaminhadas para Conferência Nacional e poderão ajudar esquecidas Bibliotecas Públicas do Brasil.

conheça as > Propostas 3ª Conferencia Estadual de Cultura
divulgue a campanha > cartaz apoio


Se você acredita que é possível provocar mudanças, manifeste seu apoio pelo abaixo-assinado online e divulgue esta informação aos amigos e interessados.

confirme seu apoio pelo abaixo-assinado online.

Obrigado!

Ação Política, Biblioteca Pública e Cultura

Sábado passado, dia 10 de agosto, aconteceu em Osasco a 3ª Conferência Municipal de Cultura, que discutiu o tema “Uma política de Estado para Cultura: desafios do Sistema Nacional de Cultura”.  Considerando a dimensão da cidade, o evento reuniu um grupo pequeno de interessados, cerca de 300 pessoas, formado por servidores públicos, sociedade civil, artistas e autoridades políticas, entre elas, o prefeito de Osasco  Jorge Lapas e seu vice Valmir Prascidelli, o deputado estadual Marcos Martins, a vereadora Profª Mazé Favarão, o presidente da Comissão de Educação, Cultura e Esportes da Câmara Municipal de Osasco e também vereador Valdir Roque, que literalmente vestiu a camisa pela causa das bibliotecas, o secretário Municipal de Cultura Fábio Yamato e o diretor regional do Ministério da Cultura que fez as primeiras recomendações da discussão.

Os trabalhos iniciaram, no período da manhã, com solenidades de abertura e a leitura do regimento interno da Conferência, que foi debatido e recebeu alterações aprovadas em plenária. Mas foi no período da tarde que os participantes realizaram a mais agitada e importante discussão, com finalidade de levantar propostas que serão encaminhadas à III Conferência Estadual de Cultura – SP.

Movimento Advocacy em Bibliotecas Públicas de Osasco na 3ª Conferência Municipal de Cultura

Movimento Advocacy em Bibliotecas Públicas de Osasco na 3ª Conferência Municipal de Cultura

Identificados pela camiseta da campanha nacional “Eu amo Biblioteca, Eu quero” , idealizada pela Febab, o Movimento Advocacy para Bibliotecas Públicas de Osasco participou da conferência com o objetivo de valorizar as bibliotecas municipais (e obter impacto nas esferas estadual e federal) com propostas para os quatro eixos de debate:

Eixo 1 – Implementação do Sistema Nacional de Cultura

• Criar o Sistema Municipal de Bibliotecas
• Criar cargos específicos para biblioteca: Técnico em biblioteconomia
• Ampliar o quadro de bibliotecários em atuação
• Promover a capacitação dos funcionários da biblioteca e a participação em eventos da área, por meio de subsídios financeiros
• Criar indicadores municipais para bibliotecas públicas que sejam factíveis e mensuráveis em todo o território nacional para se estabelecer padrão de monitoramento e avaliação
• Fortalecer e operacionalizar os Sistemas de Financiamento Público da Cultura: Orçamentos Públicos, Fundos de Cultura e Incentivos Fiscais
• Criar orçamento público específico para Biblioteca Pública promover aquisição de acervo, com vistas a sua modernização e ampliação; manutenção do software da biblioteca
• Do convênio assinado entre o Prefeito Jorge Lapas e o Ministério da Cultura, metas do PNC destinam 1 ou 2% do orçamento para Cultura, pedir sobre essa destinação 15% para bibliotecas públicas
• Criação de censo periódico das bibliotecas públicas [com indicadores de desenvolvimento e atualização do acervo, profissionais, investimento e periodicidade máxima de ocorrência de pesquisa a cada dois/cinco anos]


Eixo 2 – Produção Simbólica e Diversidade Cultural Étnica e Racial

• Financiar a digitalização de acervo de memória, objetivando a preservação, acesso e disseminação da história local
• Criar centro de multimídia nas Bibliotecas Públicas
• Criar linha de financiamento permanente para ampliar e atualizar a infraestrutura
• Inserir as Bibliotecas nas mídias sociais (Facebook, Twitter, blogs e outras que poderão surgir)
• Elaborar plano de política nacional para orientação no desenvolvimento de conteúdos das bibliotecas nas mídias sociais


Eixo 3 – Cidadania e Direitos Culturais

• Valorizar o espaço das Bibliotecas Públicas, como produtora de bens culturais, como por exemplo, a criação ou adequação de espaço para a aproximação dos escritores locais e comunidade no incentivo da criação e fruição da literatura local
• Campanha nacional na imprensa e em locais de acesso público para valorização social e cultural da Biblioteca Pública
• Promover parceria entre Secretaria da Cultura e Secretaria da Educação, especificamente para a Biblioteca Pública, para criação de uma rede de compartilhamento de saberes
• Inserir a Biblioteca Pública no circuito extracurricular dos estudantes, a fim de que percebam o papel de produtora cultural e de formação cidadã da Biblioteca Pública
• Cumprir o papel designado no Manifesto da UNESCO para Bibliotecas Públicas: “…..porta de entrada para o conhecimento….é o centro local da informação, tornando prontamente acessíveis aos seus utilizadores o conhecimento e a informação de todos os gêneros” Portanto, sugerimos a implantação do Serviço de Informação ao Cidadão – SIC, de acordo com a Lei Federal de acesso a informação 12.527/11, em Bibliotecas Públicas
• Revitalização das Bibliotecas Públicas já instaladas no município


Eixo 4 – Cultura e Desenvolvimento

• Inserir as Bibliotecas Públicas de Osasco no circuito turístico da cidade, através de serviços e ou produtos que ofereçam melhor experiência para o público, baseado em três fatores básicos: utilidade, uso e atratividade para conveniência
• Observar que as três bibliotecas públicas de Osasco possuem projetos de reforma e ampliação para atingir esses objetivos

Muito embora o Movimento Advocacy tenha elaborado propostas para os quatro eixos, no momento de organização dos grupos de discussão optou, estrategicamente, em concentrar-se apenas no eixo 1. Desta forma, adquiriu mais força de convencimento e garantiu que as propostas fossem aceitas no momento da votação.

Depois das discussões em grupos, a plenária foi retomada com o resultado das propostas de todos os eixos e para eleição de delegados que participarão da Conferência Estadual. Este foi o momento das articulações e formação de grupos de pressão em busca de votos. O Movimento Advocacy aderiu a formação de uma chapa para eleição e conseguiu obter uma vaga para delegado municipal (titular e suplente, respectivamente, os bibliotecários Marli de F.S. Vasconcellos e Antonio Paulo Carretta), que agora tem a missão de representar o Movimento Advocacy para Bibliotecas Públicas de Osasco na Conferência Estadual de Cultura (dias 11 e 12 de setembro, no Memorial da América Latina, em SP).

Foi uma conquista especial, as propostas foram bem aceitas e o sentimento de valorização das Bibliotecas Públicas foi ampliado pelos conferencistas, além disso, foi divulgado ao secretário municipal da Cultura o Plano Municipal de Livro, Leitura e Biblioteca, que contém mais de 600 assinaturas de apoio e demonstra aceitação da sociedade civil, usuários e funcionários das bibliotecas, bem como participantes da conferência.

Sem dúvida foi um momento de luta, mobilização, ações concretas e conquista.  No entanto, como está a participação dos bibliotecários nas Conferências Municipais de Cultura de outras cidades? Será possível fortalecer esta causa nas Conferências Estaduais e Nacional? Vale lembrar este pensamento:

“Se não fossem iguais, os homens seriam incapazes de compreender-se entre si e aos seus ancestrais, ou de fazer planos para o futuro e prever as necessidades de gerações vindouras. Se não fossem diferentes, se cada ser humano não diferisse de todos os que existiram, existem ou virão a existir, os homens não precisariam do discurso ou da ação para se fazerem entender.” (Hannah Arendt)

Cultura e Marco Civil da Internet

Já pensou em como você está envolvido com a cultura da Internet? Comportamento, negócios, comunicação, diversão… São muitos os aspectos culturais que nos colocam em contato com a rede e, por mais distante que você acredite estar desse ambiente, a cultura produzida na Internet já faz parte do seu cotidiano e foi absorvida pelos tradicionais canais de comunicação, onde você consome informação. Isso já é um fato, nada demais. Agora imagine ser possível olhar por uma janela e observar esse impacto da cultura da Internet, ou melhor, reconhecer você dentro desse universo, como se estivesse olhando para um espelho? Um bom lugar para ter essa sensação é o Festival youPix. Este evento, além de “termômetro cultural”, permite refletir como você, grupos sociais, gerações “XYZ” [veja pesquisa “jovem digital“], empresas e profissionais das mais diversas áreas estão conectados, bem como promovem mobilizações, campanhas, produtos e inovações colaborativas.

A (14ª) edição do festival deste ano aconteceu nos dias 5 e 6 de julho, no 2º andar da Bienal, no Parque do Ibirapuera (SP), onde a acústica do local continua gerando um zumbido permanente provocado pela energia das discussões e grande troca de ideias dos visitantes. Muitos debates aconteceram ao mesmo tempo, em vários palcos distribuídos pelo andar [veja como foi a programação e balanço do evento], mas ficamos concentrados no Palcão Principal, especificamente no debate “A Liga de Defesa da Internet“ que discutiu o Marco Civil da Internet.

O Marco Civil pretende regular o uso da Internet no Brasil, propondo princípios, garantias, direitos e deveres de quem usa a rede; seu projeto de lei (PL 2126/2011, atualmente anexado ao PL 5403/2001) trata de temas como neutralidade da rede, privacidade, retenção de dados, função social da rede e responsabilidade civil de usuários e provedores. Os debatedores chamaram atenção para a luta de poder e os interesses implícitos na aprovação desse projeto, assim como no risco de prejuízo para liberdade de uso da Internet, caso prevaleça, por exemplo, reivindicações de operadoras de telefonia [assista íntegra da discussão]. No CBBD deste ano, a neutralidade da rede foi também uma questão levantada durante o evento e para alertar sobre seu impacto foi exibido o seguinte vídeo:

Agora reflita novamente: como você está envolvido com a cultura da Internet? Muitas vezes escutamos colegas bibliotecários comentarem: “isso é para novas gerações”, “não estamos acostumados com essas ferramentas”, “essa cultura ainda está fora da nossa realidade”, “é só para especialistas no assunto”. Isso não é verdade. Entendemos que existem dificuldades normais para acompanhar novas tecnologias e muitas restrições financeiras, mas já estamos vivenciando ambientes digitais e precisamos ser profissionais do nosso tempo para encarar a cultura da Internet de frente, criticar, sugerir mudanças, fazer diferente e não ficar a parte desse processo.

Hoje (23/7, às 19h) uma aula pública sobre o Marco Civil da Internet vai acontecer no vão do MASP e, em setembro, acontecerá o III Fórum da Internet no Brasil. São boas oportunidades para entender melhor este assunto e colaborar na construção de uma sociedade (em rede) mais democrática. Participem!

XXV CBBD

Terminou quarta-feira (10/07) o XXV CONGRESSO BRASILEIRO DE BIBLIOTECONOMIA, DOCUMENTAÇÃO E CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO (CBBD), que este ano foi realizado em Florianópolis (Santa Catarina) e iniciou dia 07/07. Foram quatro dias de apresentações com intensa discussão, troca de experiências, ideias inovadoras, palestras motivadoras, críticas, desabafos e reflexões de profissionais da informação de áreas diversas. Paralelamente, o evento também abrigou outros dois encontros: o III Fórum Nacional de Bibliotecas Públicas e o 1º Fórum Biblioteconomia Escolar: Pesquisa e Prática. Além disso, o sistema CFB/CRB incluiu na programação um seminário exclusivo sobre “Ética nas Profissões”, com o propósito de repensarmos as práticas do profissional bibliotecário. Tudo junto e misturado.

Por conta da diversidade de assuntos tratados e da impossibilidade de participarmos de todos os eixos temáticos do evento, fazemos abaixo um pequeno comentário das principais preocupações e mensagens disseminadas.

Abertura do Congresso:

Durante abertura do evento foi lançada a campanha (advocacy) para valorização das bibliotecas brasileiras: “Eu Amo Biblioteca, Eu Quero”. Realizada pela FEBAB, organizadora do evento, esta campanha propõe um esforço profissional para adoção de um movimento de valorização do papel social das bibliotecas e sensibilização da sociedade para apropriação deste espaço de cultura. Um estande com camisetas, canecas e bolsas promoveu a marca da campanha:

Interessados podem obter pelo site do movimento o material de divulgação ou, em breve, comprar pela loja virtual da FEBAB produtos da campanha. Primeira impressão: acreditamos que o movimento foi bem aceito pelos profissionais, o símbolo da campanha também, mas não percebemos engajamento, propostas de mobilização ou propagação de estratégias para campanha.

Temas, mensagens e reflexões: “Bibliotecas, Informação, Usuários – Abordagens de transformação para a Biblioteconomia e Ciência da Informação”

Muito embora a temática central do evento destaque o usuário, a maior parte das apresentações esteve concentrada na questão da tecnologia e seus impactos na área e nas competências profissionais. A impressão é que ainda entendemos muito pouco sobre as pessoas que frequentam bibliotecas.

As comunicações foram agrupadas em três eixos temáticos:

  1. Tecnologias de informação e comunicação: um passo a frente. Trabalhos apoiados na composição de informação + tecnologia + usuários. Impressão geral: muitas experiências de sucesso e poucas revelações de erros, a teorização apresentada indica uma apropriação de tecnologias seguindo tendências do mercado, inovando pouco e com impacto social diluído. Muitos olhares para: Web 2.0, arquitetura da informação, uso de redes sociais, interface para celular, acesso, tratamento, comunicação e transferência de informação.
  2. Transcompetências: diferenciais dos usuários e dos profissionais da informação. Foram discutidas (principalmente) as novas competências profissionais baseadas no aprendizado de tecnologias e interação em ambientes digitais com usuários nativos. Impressão geral: temos pouca habilidade com ferramentas digitais, dificuldades com o trabalho colaborativo e falhas na interação com os nativos da era digital. As ferramentas são utilizadas mais para comunicação e bem menos para ação. Poucas referências aos conceitos de liderança, advocacy e mediação, porém, destaque para relação entre biblioteca e memória, assim como experiências de humanização, saúde e bem-estar, por meio da biblioterapia.
  3. Bibliotecas, Serviços de Informação & Sustentabilidade. Comunicações focadas na gestão e qualidade de serviços, propostas de avaliação, métricas, marketing e ações culturais. Impressão geral: experiências que indicam o quanto precisamos evoluir na relação “humano-biblioteca” e na urgência de propor condições de sustentabilidade.

veja aqui os vídeos das conferências.

Fóruns:

Bibliotecas Públicas: Apresentação de experiências sensíveis e focadas na prática cultural e mediação da leitura. O Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas prepara uma revisão na base de dados de bibliotecas brasileiras e desenvolve uma nova aplicação que, esperamos, seja para promover visibilidade, monitoramento das instituições, controle de investimentos e formação de uma rede de ações e boas práticas. Infelizmente, não percebemos grandes mudanças e inovações na área, assim como o discurso continua apoiado no esforço pessoal, dificuldades financeiras e recorrente descaso político.

Biblioteconomia Escolar: Preocupações concentradas, com toda razão, na lei de universalização das bibliotecas nas instituições de ensino, na revisão da relação entre aluno, escola e biblioteca e nas dificuldades de encontrar um modelo norteador.

Visão geral e alguns apontamentos:

Devido a diversidade e quantidade de trabalhos, seria impossível criar um relato detalhado do evento. De qualquer forma, esperamos que a FEBAB disponibilize no site todo material das apresentações. Relatamos aqui uma percepção sobre este encontro e, como resultado da participação, algumas reflexões profissionais:

  • temos discutimos muito pouco a ética e o bem-estar profissional
  • desconhecemos a dimensão da Lei de Acesso à Informação para bibliotecas
  • ainda não entendemos a proposta de trabalho colaborativo, conectividade e interatividade
  • carecemos de boas práticas para uso de mídias sociais
  • nossa competência como mediador entre informação e usuário precisa ser revista
  • temas como memória, biblioterapia, bibliotecas públicas e escolares precisam ser fortalecidos em nossa área
  • cresce o mercado de livros digitais, mas pouco sabemos sobre seu uso
  • recursos educacionais abertos, conhecimento livre e ensino a distância são novas realidades e precisam ser apropriados pela área
  • o espaço físico da biblioteca precisa atender características estruturais: flexibilidade, funcionalidade, interatividade e segurança

As mensagens transmitidas no congresso possuem vários tons (alerta, política, motivação, sensibilização) e traduzem bem o momento atual: de revisão profissional e mudança de comportamento; de olhar para o futuro; de aceitação das novas tecnologias; de mudança da geração de usuários; de promoção da criatividade; de urgência em ações, mobilizações e união profissional. Percepções do momento que foram captadas em duas citações inspiradoras:

“Nenhum de nós é tão inteligente como todos nós juntos” (Warren Bennis)

“Os analfabetos do futuro não serão aqueles que não sabem ler ou escrever, mas aqueles que não sabem aprender, desaprender, e reaprender.” (Alvin Tofler)

De tudo o que conseguimos acompanhar, estas duas frases resumem bem o sentimento do momento: pensar em grupo, aprender, experimentar e agir em rede.

3ª Conferência Nacional de Cultura

Conferência, seja em qualquer nível de governo que for realizada, tem por objetivo promover a participação da sociedade na formulação de políticas públicas. No nosso caso, deste blog Biblioteca é muito +, interessam as políticas públicas para Cultura e Informação focadas na Biblioteca Pública.

Além disso, este evento público tem o papel de avaliar as metas estabelecidas em Conferências anteriores, registrando o aconteceu e o que faltou para acontecer. Trata-se do exercício da cidadania.

Neste ano vai acontecer entre os dias 26 a 29 de Novembro, em Brasília, a 3ª Conferência Nacional de Cultura, tendo como tema central “Uma Política de Estado Para a Cultura: Desafios do Sistema Nacional de Cultura”, desdobrados em:

• Implementação do Sistema Nacional de Cultura: foco no impacto da Emenda Constitucional nº 71 de 21/11/2012 para gestão e organização da cultura e a participação social, nas três esferas de governo;

• Produção Simbólica e Diversidade Cultural: o ponto central é o fortalecimento da produção artística e de bens simbólicos e da proteção e promoção da diversidade das expressões culturais, com atenção para a diversidade étnica e racial;

• Cidadania e Direitos Culturais: discute a garantia do pleno exercício dos direitos culturais e consolidação da cidadania, com atenção para diversidade étnica e racial;

• Cultura e Desenvolvimento: refere-se às questões da economia criativa como estratégia de desenvolvimento sustentável.

Se você quiser saber mais sobre o tema, regimento interno e mais detalhes da 3ª Conferência Nacional de Cultura acesse aqui

No entanto, as discussões e propostas para a Política Nacional de Cultura, que serão debatidas e votadas na 3ª Conferência Nacional, emergem de discussões e formulações elaboradas nas Conferências Municipais e Estaduais. Desse modo, sendo base para uma discussão nacional, a participação nas Conferências Municipais é de fundamental importância por ser o momento oportuno e o espaço ideal para apoiarmos as Bibliotecas Públicas com ideias que serão debatidas, representadas e votadas. Esta é uma maneira de inserir a Biblioteca Pública na pauta e agenda da política cultural.

Ainda vale destacar que, neste momento do debate municipal, serão eleitos os delegados municipais para a Conferência Estadual de São Paulo onde, por sua vez, serão escolhidos os delegados estaduais que vão representar os interesses culturais do Estado de São Paulo em Brasília.

Desse modo, a participação de todos os interessados na causa da Biblioteca Pública tem nas Conferências Municipais um importante instrumento de representação, bem como um espaço democrático para propor novos caminhos para a Biblioteca Pública.

Por isso, verifique quando a conferência ocorrerá em seu município. Aqui em Osasco, a 3ª Conferência Municipal de Cultura será realizada no dia 9 de julho [mudou para 10 de agosto, veja aviso completo aqui], no Centro de Eventos Pedro Bortolosso, das 9h às 16h. É necessário fazer inscrição entre 11 a 28 de junho [até dia 8 de agosto]. Mais informações, acesse edital 937 pag. 13.

Agora pense na importância dessas conferências e responda: “A quem cabe discutir e representar os interesses da Biblioteca Pública?”